Harry se certificou que estava sozinho no banheiro feminino do segundo andar antes de apontar a varinha para a torneira com a pequena cobra prateada e ordenar: abra. O tubo largo que fazia as vezes de entrada para o subsolo secreto do castelo se abriu e Harry se lançou para a queda livre, com acostumado abandono.
Harry se certificou que estava sozinho no banheiro feminino do segundo andar antes de apontar a varinha para a torneira com a pequena cobra prateada e ordenar: abra. O tubo largo que fazia as vezes de entrada para o subsolo secreto do castelo se abriu e Harry se lançou para a queda livre, com acostumado abandono.
Lá embaixo, os ossinhos estalaram sob os seus pés quando ele caiu sobre o que ele considerava o hall de entrada da câmara secreta. O mesmo som sussurrado escapou de seus lábios, Harry passou pela segunda porta, alcançando o antigo habitat do finado basilisco e, mais recentemente, o seus aposentos privados em Hogwarts.
Harry teria gostado de continuar ocupando a cama de Dino Thomas na Torre da Grifinória, mas logo tinha ficado claro, com o fechamento de Hogwarts e a partida de Bervely da escola, que o plano não seria o mais sensato. Bervely tinha deixado alguma poção Polissuco pronta - o suficiente para algumas semanas de disfarce - mas até Hermione conseguir reproduzir a receita com sucesso, Harry precisava economizar o que lhe restava da poção. Além disso, os ingredientes da polissuco - e muitos outros, estavam ficando escassos no mercado por conta da guerra bruxa. No fim, fingir que Dino Thomas decidira deixar o castelo com a maioria dos demais alunos nos dias que se seguiram a suspensão das aulas foi a decisao mais sensata- então restara a Harry recolher as suas coisas e, quando os demais colegas estavam entrando em carruagens ou usando a lareira para voltar para casa, fazer o caminho ate o único lugar do castelo que ele podia ter certeza que era o único habitante atual a ter acesso.
A câmara, com sua constante umidade cavernal, iluminação quase inexistente e os ossos do basilisco como decoração, não era dos esconderijos mais aconchegantes. Harry havia arrumado uma espécie de acampamento numa reentrância da caverna, e feito ali a sua morada. Ao espaço ele incluíra meia dúzia de velas flutuantes roubadas do salão principal, um cobertor de veludo vermelho e algumas almofadas, trazidos respectivamente do dormitório e do salão comunal da Grifinória, o seu malão fazendo as vezes de mesa, e a sua firebolt, que Harry tinha pendurado cuidadosamente na parede à guisa de decoração.
Era ali que ele tinha passado a maior parte das últimas semanas, quando não estava em reuniões da Ordem, ignorando os convites de Remus e Hermione para que ele ficasse na Casa dos Gritos. Alguma parte de Harry ainda se agarrava a Hogwarts e a sua promessa à Dumbledore - e aos alunos que tinham decidido ficar. Não era porque eles achavam que Harry estava morto que Harry pretendia abandoná-los. Hogwarts era onde Dumbledore lhe mandara esperar, e Harry não via sentido em seguir a sua ordem pela metade - por mais que a sua preocupação com a ausência de notícias só aumentasse.
Ao menos ali embaixo, Harry não precisava usar a poção Polissuco o tempo inteiro. Ele tinha sentido o efeito passar no seu caminho de volta para Hogwarts, sob a capa da invisibilidade, e o fato de que não precisaria tomar outro gole até o dia seguinte era uma pequena benção na qual ele estava disposto a se agarrar.
Harry se embrenhou em seu acampamento improvisado na reentrância da parede, recuperou uma pêra que afanara da mesa de café da manhã no salão principal em uma de suas rondas invisíveis, e puxou o livro da vez - Defensiva Avançada Contra Criaturas das Trevas. Harry escaneou o menu até encontrar “Vampiros”, subcategoria “Lapsos”, página 678. Localizada a página, apoiou o livro aberto sobre o malão de forma que a vela iluminasse ambas as paginas, e mal tinha começado a ler a primeira frase quando foi interrompido.
— A que pontos chegamos na degradação post-mortem do Garoto Que Desistiu. Lamentável.
Harry saltou, sua pêra rolando para um lado, o pesado livro caindo sobre o seu pé o seu cocoruto encontrando o topo da caverna com um baque doloroso. Os olhos lacrimejando, ele apontou a varinha na direção da voz, tentando ver através do lusco-fusco da câmara.
— Quem está ai? — Ele exigiu, o coração na boca, enfim vendo uma sombra pequena se mover nas proximidades da entrada, por detrás da imponente ossatura das costelas do basilisco. — Hominus revelio!
Astoria Greengrass surgiu em sua linha de visão, as mãos erguidas no alto, as palmas brancas viradas para ele, e uma expressão de quem estava sentindo um cheiro ruim sob o nariz.
— Wow — Os olhos dela pousaram no cadáver do basilisco, ainda caído onde Harry o deixara, há três anos. A maior parte da carne da criatura tinha ido embora, devorada por ratos. Os ossos estavam expostos, redondos e enormes como fora a criatura em vida. A cabeca do basilisco, voltada para a entrada, era a única parte quase intacta, exceto pelos buracos onde os olhos tinham estado, antes de Fawkes perfurá-los.
Astória encarou a forma decrepita e monstruosa do basilisco por tanto tempo que deu a Harry a chance de se aproximar dela, a varinha ainda apontada em sua direção, furioso.
— Como entrou aqui?!
— Esse era o…
— Basilisco, sim! Como você chegou aqui?
— Então é verdade? Foi você quem o matou?
Havia indignação no tom dela, misturado com admiração. A única coisa que Harry não estava ouvindo era o mínimo de senso de auto-preservação, visto que a varinha dele estava apontada na sua direção.
— Pobre criatura — suspirou Astória.