Maio, 1997

Três semanas após o velório de Harry Potter

Do corredor do primeiro andar da Casa dos Gritos, através da porta entreaberta que dava acesso ao quarto onde a Ordem fazia as suas reuniões, Harry ouviu a voz tensa de Remus reverberar no ar estagnado. Até onde Harry sabia, nenhum membro da Ordem tinha chegado para a reunião daquela noite, mas o fato de que o seu ex-professor parecia ter companhia o fez hesitar no corredor.

— Não, eu não sei para onde mais ela poderia ter ido —  Ele ouviu Remus dizer, uma constrição de cansaço presente em sua voz com frequência nos últimos tempos. — Eu já verifiquei todos os lugares que pude pensar. O Hospital St. Mungus, St. Catchpole com Andrômeda, até mesmo em Avalon com Anne. A minha última esperança é que ela tivesse encontrado o caminho até você.

A voz que respondeu Remus era distante, mas familiar o bastante para fazer Harry se inclinar na direção da fresta e se concentrar.

— Se ela tivesse tentado chegar aqui, eu saberia — Harry conseguiu divisar a resposta, num tom que fazia par à preocupação do lobisomem. — E quanto a Snape? Ela foi até ele, da última vez, não foi?

Houve uma pausa antes de Remus responder, mesmo que o seu interlocutor – Sirius, Harry suspeitava – tivesse deixado no ar o que acontecera “da última vez”.

— Eu não tenho como contactar Severus, no momento — Foi a resposta de Remus, e pelo tom, Harry podia adivinhar que as sobrancelhas dele estavam franzidas daquele jeito que ficavam quando ele não queria mentir, mas não podia falar toda a verdade.

Uma expressão que Harry vinha vendo no rosto do ex-professor com certa frequência, desde que ele assumira as operações da Ordem da Fênix.

— Ele está em missão?

Mais uma pausa hesitante.

— Eu não poderia dizer.

— Não poderia, ou não vai? — Uma nota de impaciência na resposta.

— Eu não sei — A resposta de Remus, dessa vez, soou como se proferida entredentes, carregada de frustração. — Mas não, não acho que Bervely esteja com ele. Pelo que eu soube, Severus deixou bem claro antes de partir que ela não deveria procurá-lo em nenhuma hipótese.

Dessa vez o silêncio dentro da sala foi introspectivo, e Harry cogitou se deveria parar de entreouvir a conversa e anunciar a sua presença, ou voltar mais tarde. Exceto que, no minuto que ele se movesse, o piso antigo da Casa dos Gritos gemeria sob os seus pés, anunciando a sua presença.

Antes que ele pudesse decidir, Remus falou de novo.

— Isso é tudo culpa minha — Havia derrotismo em sua declaração. Outros sentimentos que não eram estranhos ao lobisomem, ultimamente. Harry desistiu de tomar uma decisão e apurou os ouvidos mais ainda, curioso.